O Festival Cumplicidades, este ano com curadoria de Luiz Antunes, apresentou no Teatro Taborda, dias 13 e 14 de Maio, o double bill Iwa-Kagami, de Yuko Kominami (Japão) e Escritura del Movimiento, de Laura Rios (Cuba). Duas obras que trabalham sobre a memória – em Iwa-Kagami, de uma figura ausente, em Escritura del Movimiento, daquela que o nosso corpo regista de forma invisível, diariamente, nos caminhos que percorremos.
Iwa-Kagami, de Yuko Kominami

Num palco despido e escurecido, dois focos de luz incidem sobre uma figura sentada, de olhar sereno, vestida com um kimono cinza e com o cabelo preso. Do lado direito do palco está uma faixa branca e por momentos não se distingue se é um ponto de luz, uma saída, ou, pelo contrário, uma barreira. Surje então a música de Johann Pachelbel, Canon in D, e a luz abre. Imóvel, Yuko Kominami olha em volta para o público em geral e ninguém em particular. De sorriso calmo, coloca as mãos nas pernas, e desliza-as, coloca depois as mãos nos cotovelos, esconde o rosto e balança suavemente o corpo. O seu movimento começa por ser tímido, mas à medida que a música é distorcida e trabalhada, também ele segue um crescendo. Um diálogo com o seu pai, que faleceu recentemente e a quem dedica este solo, Iwa-kagami é uma peça comovente na sua simplicidade. Não há nela um movimento excessivo ou uma emoção forçada. Já perto do fim, Kominami desaparece através da faixa branca, que então projecta uma imagem sua, com a mesma roupa, a dançar. Não era barreira. Era porta, para um outro lado. Seja ele qual for.
“Iwa-kagami é uma flor rosa que floresce em certas montanhas no Japão. Nos últimos dias de vida do meu pai, devido ao seu último pedido, subimos uma montanha muito íngreme para ver esta flor. Lembro-me da sua felicidade ao ver a flor, e da semelhança entre os dois, rastejando e florescendo lindamente.”
Yuko Kominami
Escritura del Movimiento, de Laura Rios

Há um momento em Escritura del Movimiento, solo de Laura Rios, em que parece que a peça irá crescer para algo inesperado. Já perto do fim, a tela que no início era branca, agora está preenchida por riscos criados pelas suas mãos que balançaram de uma ponta do palco para a outra. A imagem criada pelo movimento de Rios é, curiosamente, o verdadeiro clímax desta peça. Sempre de costas para o público, e com movimentos pouco exploratórios – pouco mais do que braços esticados e a percorrerem a tela em forma de “mariposa” – Laura Rios cria em Escritura del Movimiento uma peça inconsequente. A intenção de questionar ‘os traços invisíveis’ que os corpos em movimento criam nos seus percursos diários é acompanhada por reflexões em voz-off que nos falam da poética do movimento, mas que nos deixam à sua procura.
A fotografia de destaque deste artigo é da autoria de ©Bohumil Kostohryz.
