Conseguiremos nós simular ou replicar as relações humanas? Que verdade carregam os corpos? Carminda Soares e Margarida Montenÿ propõem-nos ao longo de 45 minutos um exercício sobre intimidade, união, sincronia e conflicto; um simulacro.
Entramos na Blackbox do Centro Cultural de Belém, onde ambas estão sentadas, de pernas entrelaçadas, num linóleo branco. A luz é rosa-choque e as suas roupas estão coordenadas: calções e camisa verde, com mangas-balão, ténis e meias pretos. Carminda e Margarida fixam atentamente o olhar uma na outra, enquanto corpos estranhos procuram um lugar onde sentar e colocar os headphones que encontram nas cadeiras. De alguma forma, ao ouvirmos a música (de Antonio Marotta) através dos headphones entramos num espaço de intimidade e isolamento: cada espectador está sozinho na plateia. A luz baixa (de Out Cube – João Monteiro) amplia essa mesma sensação.

Como réplicas de um terramoto que atravessa cada corpo, os movimentos repetitivos e em sincronia (com a música e entre as duas performers) potenciam momentos de tensão e resistência, mas também de poética e vulnerabilidade. Já de pé, de costas uma para a outra, os seus rostos encontram-se, e agacham-se num abraço que desaparece no impulso que as devolve à verticalidade. Um exercício até à exaustão do gesto pela repetição; aquela que nos traz de volta aos nossos sentidos e humanidade, quando o corpo responde continuamente ao movimento, mas a respiração não disfarça a resistência necessária para o executar.
Por breves instantes, a luz abre e expõe a sala a um confronto com o outro, ou ao seu reconhecimento. Entramos no domínio do público, e de seres alheados passamos a cúmplices, voyeurs, até que a luz regressa à intimidade destas duas figuras e com elas regressamos ao espaço privado.
Uma peça clara na sua proposta e inquietante na sua execução, SIMULACRO pode bem adaptar-se a inúmeros cenários e espaços não convencionais. Os nomes de Carminda Soares e Margarida Montenÿ estão apontados. Fica a expectativa do que irão criar a seguir.
