A convite do Forum Dança, a coreógrafa Meg Stuart vai estar em Portugal no próximo ano na concepção e direcção artística da 8.ª edição do Programa Avançado de Criação em Artes Performativas (PACAP). A decorrer entre Fevereiro e Julho de 2025, esta edição concretiza um projecto que Meg Stuart tinha na gaveta à espera de ser concretizado: Mystery School of Choreography. Nas palavras da criadora, partilhadas pelo Forum Dança em comunicado, esta ‘Escola Misteriosa da Coreografia’ pretende ser “um lugar onde o fascínio pelo metafísico se entrelaça com a composição, a coreografia e a criação artística”. O programa é destinado a profissionais e estudantes das artes performativas que pretendam investir num período de experimentação avançada, conciliando a investigação, a criação e a apresentação ao público. As inscrições terminam a 31 de Maio, no site do Forum Dança.

Convidada pelo Forum Dança para criar um projecto para a 8.ª edição do PACAP, Meg Stuart propõe Mystery School of Choreography (MyS), um conceito que alia metafísica, composição coreográfica e criação. Ana Rocha, habitual colaboradora da coreógrafa em Portugal, foi convidada pela própria a fazer a assessoria artística. Em conversa com o LES CORPS, explica que esta é “uma ideia da Meg que não foi ainda concretizada, um conceito com alguns anos já” e que passa por uma “escola, de formação, de troca de ideias e de práticas que pode ser concretizada em vários locais, com relação directa ao local onde decorre”. O arranque será precisamente no Programa Avançado de Criação em Artes Performativas (PACAP) do Forum Dança.
Dora Carvalho, directora do Forum Dança, explica ao LES CORPS que o PACAP parte sempre de uma questão colocada aos curadores ou diretores artísticos convidados: “o que é para ti a escola ideal?”. O PACAP tem, desde a sua génese, “o objectivo de trabalhar com redes diferentes de artistas, que trazem a Lisboa os seus núcleos de contactos, para além de fornecer aos participantes workshops e condições ideais, do nosso ponto de vista, tanto para a criação acompanhada pelos colegas, como pelos formadores e pelos curadores, que são também tutores e que fazem o acompanhamento do projecto até à fase de apresentação final.” O PACAP8, com a MyS, convidará diversos artistas a partilhar a sua experiência e os seus processos de trabalho, tais como Benoît Lachambre, CA Conrad, Doug Weiss, Gaya de Medeiros, Isabela Santana, Justin F. Kennnedy, Keith Hennessy, Márcio Kerber Canabarro, Maria F. Scaroni, Mariana Tengner Barros, Mayfield Brooks, Mieko Suzuki, Odete, Renan Martins, Sigal Zouk e Xullaji.
Desde 2017, e actualmente na sua sétima edição, o PACAP já apresentou propostas e trabalhou programas com a curadoria de Patrícia Portela, Sofia Dias e Vítor Roriz, Vânia Rovisco, João dos Santos Martins, João Fiadeiro, Miguel Pereira e Nuno Lucas. “A ideia é trazer diferentes linguagens e diferentes propostas e não ter uma escola que repete os mesmos métodos ou que reproduz a visão de um só mestre sobre a dança, a arte, o conhecimento político e artístico.”, esclarece Dora Carvalho.
A Meg tinha este conceito que já tinha pensado concretizar e que se encaixava perfeitamente no PACAP.
Dora Carvalho, Directora do Forum Dança
“A Meg é uma artista cujo trabalho tenho acompanhado ao longo dos anos. Está ligada ao Forum Dança desde o seu início, foi minha professora numa formação em 1994.”, explica Dora, quando questionada sobre a escolha de Meg. “Já a anterior Direcção do Forum Dança tinha uma ligação à Meg e a Meg tem uma grande ligação a artistas portugueses que trabalharam com o Forum Dança. Portanto, existe uma cumplicidade artística, naturalmente. Em 2019 fizemos um PACAP com curadoria de Vânia Rovisco, a quem pedi que convidasse a Meg Stuart”, explica Dora Carvalho. “Quando a Meg veio e conheceu o projecto do PACAP, disse-me “I want to do this” (‘eu quero fazer isto’). Fiquei um pouco nervosa, confesso, porque Portugal tem condições diferentes daquelas a que está habituada na Europa central, mas respondeu-me “don’t worry about the money” (‘não te preocupes com o dinheiro’). Começámos então a por as mãos na massa há dois anos. A Meg tinha este conceito que já tinha pensado concretizar e que se encaixava perfeitamente no PACAP.” Nasce assim a primeira edição do Mystery School of Choreography.
Na linha do trabalho desenvolvido por Meg Stuart, esta escola propõe uma viagem transformadora, com uma abordagem ambientalmente consciente, “a fenomenologia e ligação a mundos visíveis mas que estão invisíveis”, diz Ana Rocha. “Na MyS há uma ligação entre as artes visuais, a fotografia, a voz, o ritmo, a composição, a dança sufi, a composição sonora, a exploração coreográfica e musical” e uma preocupação por abordar uma “consciência política, ambiental, ecológica, de diversidade e inclusão”, fora de “catalogações”. O programa terá a vertente física e online, com formações e residências, em Lisboa, São Miguel, Açores, e em Montemor-O-Novo, onde Ana Rocha diz que haverá “algumas surpresas”.

Meg Stuart propõe que os participantes partam de uma posição de não-saber e que cultivem uma atitude de principiantes: “partindo do que nos fascina, estamos também a praticar um sentido de encantamento, como se vivêssemos um sonho lúcido em conjunto. Seremos guiados pela natureza, causa e efeito, transformação energética, desorientação e adivinhação, geometria sagrada, visões rítmicas e voz, alquimia, amor e política, não localidade e física quântica, contemplação profunda e interior”.
Os participantes “não são só alunos, este é um programa de investigação e de iniciação à sua própria criação”, reforça Ana Rocha. Até 31 de Maio, data em que encerram as inscrições, o PACAP8/ Mystery School of Choreography procura participantes “que já tenham feito trabalho emocional interior, com os pés na terra, não conformistas, sensíveis aos processos dos outros e altamente motivados. Flexíveis, apaixonados pela improvisação, abertos a procedimentos aleatórios e a estruturas experimentais”, diz o comunicado. O processo de selecção terminará em finais de Setembro, segundo comunicado do Forum Dança.
Ao longo de seis meses, os participantes terão a oportunidade de pesquisar e compôr em vários formatos e ambientes, uma vez que a Mystery School of Choreography vai decorrer em residência e com apresentações em espaços dos seus co-produtores que são o Teatro do Bairro Alto (Lisboa), a Culturgest (Lisboa), a bienal Walk&Talk (São Miguel, Açores) e O Espaço do Tempo (Montemor-O-Novo). ⚫
