«A Perna Esquerda de Tchaikovski», Teatro Camões

Originalmente publicado em arte-factos.net, a 15 de Fevereiro de 2015.

CNB A perna esquerda de Tchaikovski (1)
foto: Bruno Simão

Sempre preferi o ensaio ao espectáculo. Sempre me entusiasmou mais assistir ao ensaio do que ao espectáculo em si. Não só porque vejo os alicerces de toda a produção, mas também – e principalmente – porque esse é o momento da transição. No ensaio não estamos ainda perante as personagens, mas perante os bailarinos – eles próprios, com todo o esforço mostrado, os trajes desajeitados, o cabelo por pentear. É o momento em que tudo é verdade e nada é disfarce.

A Perna Esquerda de Tchaikovski não é um espectáculo. É um ensaio disfarçado de espectáculo. A Perna Esquerda de Tchaikovski nem sequer é de Tchaikovski, mas de Barbora Hruskova. O público não é apenas uma mancha que se vê do palco, mas indivíduos com quem Barbora dialoga, e a quem relata a história de uma bailarina a quem insistiram que o seu corpo «não foi feito para dançar». Depois da sua despedida da Companhia Nacional de Bailado (CNB), em Junho do ano passado, aos quarenta e dois anos Barbora volta ao palco confessando que «agora sim, é a última vez. Talvez.». Numa narrativa pessoal, Barbora faz uma retrospectiva daquilo que foi o seu percurso, desde menina que do seu quarto em Bazel, França, via as estrelas e aguardava o dia em que se tornaria bailarina, ao momento em que foi mãe e soube que o seu corpo não voltaria a ser o mesmo, que não responderia da mesma maneira aos desafios do palco.

Estamos num estúdio, com um «afinador de pianos» – Mário Laginha – uma barra, um quadro com cada lesão de Barbora apontada e respectivas peças que as provocou, qual espelho negro que faz questão de lhe lembrar os obstáculos que o seu corpo lhe colocou: «cada dor no meu corpo pertence a um espectáculo», confessa. Cada lesão corresponde a uma música/compositor/bailado – o cóccix de Händel, o quadril de Sonho de Uma Noite de Verão, a perna esquerda de O Lago dos Cisnes, composto por Tchaikovski, o joelho de La Sylphide, o pé de Romeu e Julieta, de Prokofiev, o dedo de Carmina Burana.  Somos seus confidentes,  conta-nos a sua rotina. Diz-nos que fala com os seus pés, que lhes pede que aguentem uma vez mais, só mais esta vez, talvez. Ouvimos a sua respiração, sentimos o seu último esforço. Depois deste espectáculo, sabemos que libertará as suas pernas, que correrá livremente, sem obedecer a coreografias.

A Perna Esquerda de Tchaikovski mostra-nos os bastidores da vida do bailarino, o contraste entre o estúdio e o palco, os sacrifícios necessários para que o bailado seja a experiência estética do sublime e do belo. Para quem busca constantemente a perfeição, «no palco, os olhos [do público] são a sua liberdade», mas em estúdio, o espelho lembra a bailarina de que ainda há trabalho a fazer, mostra-lhe todas as suas falhas. Acompanha-a diariamente, critica-a, lembra-lhe de que nem sempre é fácil existir no próprio corpo. É este o tipo de exercício que A Perna Esquerda… nos propõe: de que matéria somos feitos? Qual a memória do nosso corpo? E como nos molda? A vulnerabilidade da bailarina é, aqui, a chave do espectáculo (ou ensaio). O reconhecimento e aceitação do seu corpo e limites não impediram, afinal, que fosse primeira bailarina (da CNB) e que conte no seu percurso com um repertório infindável de bailados clássicos.

Tiago Rodrigues dirigiu esta peça, a convite de Luísa Taveira, directora da CNB, e será das raras vezes (senão a única) em que veremos Mário Laginha num curto pas de deux. Barbora «sonha mais quando dança do que quando dorme» (nas palavras da própria) e aqui faz-nos sonhar mais alto, sonhar para além do palco, esse palco que é a vida.

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