«Metamorfose», pela Escola Superior de Dança, Culturgest

Originalmente publicado em arte-factos.net, a 25 de Junho de 2012.

Cenografias Móveis - Ana Sofia Esteves 1
fonte: Culturgest

Foi na sequência do workshop Cenografias Móveis (promovido pela Culturgest entre Abril e Junho deste ano) que surgiu Metamorfose. A Escola Superior de Dança (ESD) foi desafiada e prontamente aceitou criar uma coreografia em torno das cenografias desenvolvidas nessa mesma formação. Os alunos finalistas da Licenciatura em Dança – Carla Sabino, Rita Botas, Samara Botelho, André Russo, Bruno Duarte e Gustavo Gomes – mais do que uma coreografia, criaram novos imaginários.

Naquele que é o natural decorrer do processo criativo, a cenografia procede o trabalho coreográfico e organiza-se segundo as suas narrativas. Este não foi o caso. No decorrer do workshop Cenografias Móveis, os formandos criaram cenários, reciclando de forma original materiais diversos. Coube aos alunos da ESD desenvolver uma coreografia e interagir com esses mesmo cenários.

O jogo de luzes em conjunto com a sonoridade que alastrava a sala, os mecanismos cénicos em constante mutação e o vídeo transportaram os espectadores para outra dimensão. Mais do que coreografar a cenografia, os bailarinos interagiram com ela e criaram uma dimensão onírica. Sombras que dançavam em atraso com os movimentos dos bailarinos, performances turbulentas ao longo de um tubo de plástico e um entrelaçar dos bailarinos com uma maqueta suspensa preencheram todo o espaço envolvente.

No final, acenderam-se as luzes e descobriu-se o que esteve para lá do espectáculo: Paulo Ramos, o director técnico da Culturgest, formador do workshop, convidou a plateia a subir ao palco e explicou como foram concebidos os cenários. Quase se poderia dizer “try this at home” – todos os materiais (re)utilizados na cenografia estão guardados mesmo ali na dispensa: rolos de cartão, plástico,… A imaginação e a criatividade é que tiveram todo o trabalho.

Esta “visita coreografada”, tal como foi classificado o espectáculo, derrubou a tradicional barreira espectador-espectáculo (sendo o encerrar de um workshop ) não desfazendo, contudo, a aura cósmica com que inicialmente encaramos a performance. É quase como um sonho: quando acordamos, ele não deixa de pertencer a um outro espaço ou tempo, mas marca em nós uma impressão.

“A linha ideal que separa a assistência e a parte da representação, inverte os papéis no momento em que se apaga a luz e sobe o pano: o imaginário torna-se realidade e o real torna-se sonho.” (Botta, 1998: 129) citado por Duarte (2012: 52)*

O workshop contou com vinte e dois participantes que activamente trabalharam a cenografia, e no total, mais de trinta criadores integraram todo o projecto artístico, que envolveu quinze propostas de cenário e seis maquetas. Entre os dias 21 e 23, Metamorfose foi apresentada no Grande Auditório da Culturgest.

*Duarte, Rui Barreiros (2012) Os Paraísos Perdidos de Éavum – Sobre a Incomunicabilidade. Lisboa: Caleidoscópio.

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